ENTREVISTA A "MESTRE" EDUARDO SANTOS                          

 

                   GARAGEM AURORA, PORTO

 

 

 

Por Carlos Gilbert

 

Para quem vem com regularidade a estas páginas, “Mestre” Eduardo não necessita de apresentações. É o dono da “Garagem Aurora”, do Porto, e com certeza o preparador nacional que mais de Porsches percebe. Homem muito “batido” por inúmeros anos dedicados ao automobilismo de competição, com imensas histórias e “estórias” para contar, é uma delícia passar umas horas com esta autêntica “lenda viva” do automobilismo nacional, comparável a nomes míticos como Jeremias Acácio Leite, Fernando Palhinhas e os Palma, pai e filho.

 

Pessoalmente, conhecemos “Mestre” Eduardo e a sua oficina praticamente desde que se iniciou na assistência a carros de competição e à construção dos famosos “Aurora Vê”. Recentemente, tivemos o grato prazer de nos reencontrarmos com ele para uma longa troca de opiniões, reviver momentos como a nossa ida à Porsche (relatada noutro local) e as mais diversas peripécias que foram ocorrendo com o tempo. E, claro, recolher com mais pormenor diversos aspectos da sua carreira como preparador de automóveis de competição de créditos firmados há muito.

 

     O Aurora V de "R.Cavagnac" na Granja do Marquês   (foto: Carlos Gilbert)

 

 

  CG: “Eduardo, como foi que tudo começou?”

Eduardo Santos: “Eu iniciei-me como simples mecânico aqui na “Garagem Aurora” quando esta oficina dava assistência nos anos cinquenta a alguns participantes em corridas de automóveis daqui do Porto, com destaque para o pai Nogueira Pinto, que tinha um Ferrari, e para Manuel Matos Gil, que possuía um Allard. Mais tarde adquiri a casa ao antigo proprietário e essas pessoas continuaram a ser clientes.”

 

CG: “E foi logo nessa altura que começou a construir os seus próprios Fórmula Vê?

ES: “Sim, foi na sequência da introdução desta fórmula entre nós, em que no início todos corriam com carros “Palma Vê”, que me resolvi a construir um carro para o Fernando Albuquerque (Nota: que correu sob o pseudónimo de “F. White”) e depois outros foram feitos para o “Doutor Cavagnac”, o Carlos Pinto de Azevedo, (Nota: na altura a correr sob o pseudónimo de “Barbicaxo”) o António Barros, e mesmo para o Robert Giannone (Nota: piloto que com estes carros se estreou na competição automóvel).

 

    Carlos Pinto de Azevedo "Barbicaxo" ao volante de um Aurora V   (foto: Carlos Gilbert)

 

CG: “E como começou a sua predilecção pelos Porsche?”

ES: “Foi depois de o “Mané” Nogueira Pinto ter comprado o 911R que eu me comecei a familiarizar com a mecânica desta marca. Fomos buscar o carro à fábrica, onde tive um estágio de três semanas. Depois ele trocou esse carro pelo Carrera 6, que comprou a meias com o Andrade Villar, e veio também o Carlos Santos, quando comprou o seu Carrera 6, e mais tarde o 907”.

 

CG: “Como é que foi a história do 907 do Carlos Santos ter corrido com um motor de 2 litros?(Nota: Recorde-se que este piloto portuense adquirira o 907 a Rui Guedes, como vem descrito noutra parte deste site.)

ES: “O Carlos Santos tinha assumido um compromisso de ir correr ao Brasil e o carro tinha forçosamente que embarcar numa segunda-feira após uma corrida em Vila do Conde. Ora acontece que o motor de oito cilindros partiu exactamente nessa prova e por falta de peças não tivemos outra solução que improvisar a montagem do motor de um Carrera 6 no 907 e foi assim que ele correu no Brasil.”

 

 

     Eduardo Santos conversa com Carlos Santos, junto ao Porsche 906 "psicadélico" preparado pela Garagem Aurora. Estávamos em 1971 e a ligação entre ambos mantém-se até à actualidade, pois mais de três décadas passadas sobre esta imagem, o Porsche 911 Carrera RSR com que Carlos Filipe Santos (filho do piloto do 906) corre actualmente nos clássicos é preparado pelo "mestre" Eduardo .  (foto:  João Paulo Sottomayor)

 

      Carlos Santos com o Porsche Aurora 906 no circuito de Moçâmedes de 1973. Este carro era o antigo Carrera 6 de Carlos Santos, modificado no Inverno de 1972 para esta versão híbrida que aproveitava a parte central do Porsche, com uma nova frente e traseira concebidas por Eduardo Santos   (foto de autor desconhecido)

 

CG: “E como nasceu a ideia do “Aurora-Porsche” tipo Spyder?

ES: “Foi quando o Carlos Santos adquiriu o Carrera 6 acidentado do Andrade Villar que me pus a pensar o que fazer com o que sobrou daquele carro. Na altura em que comecei com a reconstrução tinham já corrido em Portugal os Chevron e foi nesses carros que me baseei, começando com umas improvisações no Carrera 6 do Carlos Santos, em 1972, quando este piloto estava já a correr com o 907”. (Nota: foi neste carro que “Mané” Nogueira Pinto se inscreveu em Vila Real desse ano, como vem descrito na reportagem desta prova, noutro local). “Aliás a frente toda correspondia à de um Chevron, sendo que a parte de trás mais tarde a modifiquei segundo os parâmetros dos GRD, que entretanto tinham chegado a Portugal. Daí ele ter tido como modificação aquela asa e a cobertura das rodas traseiras.” (Nota: tendo em consideração os tempos que Robert Giannone conseguiu com este autêntico “híbrido” em competição directa com os carros das marcas inglesas que por cá correram, é no mínimo espantoso o que Eduardo Santos conseguiu realizar com métodos completamente artesanais! É que convém não esquecer que a mecânica-base continuava a ser a de um Carrera 6, com cerca de 220cv de potência! Outro autêntico prodígio foi a concepção e construção da suspensão para passar as jantes da medida original de 15” para o diâmetro de 13”, algo que Herbert Staudenmaier, o responsável da Porsche naquela época pelos clientes de competição, dizia ser impossível de conseguir!... A fábrica alemã tinha tomado conhecimento deste carro através da revista da “Guérin”, na época o importador da marca para Portugal. Eduardo respondeu a Staudenmaier: “Impossível de adaptar jantes de 13” no chassis de um Carrera 6? Mas que elas lá estão, ai isso estão!...”).

 

 

     Estoril, 1973: a primeira versão do Porsche Aurora "Spyder", um protótipo esteticamente inspirado nos Chevron B-21 e que foi criado a partir dos restos de um Carrera 6 acidentado. Note-se que tudo foi feito essencialmente à base da arte e do engenho do "Mestre" Eduardo, a partir de materiais tão simples como madeira, barro, alumínio e fibra de vidro...  e tudo sem existir nenhum projecto em papel, substituído pela imaginação e criatividade de Santos.   (foto: Pub.Giannone)

 

      Robert Giannone, numa rampa de 1975, com a espectacular versão final do Aurora "Spyder", certamente o mais sofisticado Porsche Carrera 6 que existiu em todo o mundo!  Bastante modificado em relação à primeira versão de 1973, para lá do grande "aileron" copiado dos GRD, até os apoios do "roll bar" foram modificados para aumentar a rigidez do chassis.   (foto: colecção José Mota Freitas)

 

CG: “Passemos agora à segunda fase dos “Aurora-Porsche”, os baseados no modelo 911.”

ES: “Houve primeiro o RSR com que o engº Giannone correu e que foi um carro que eu fui buscar com ele à Alemanha. Mais tarde o engenheiro transformou-o em Grupo 5 com mecânica dos irmãos Alméras, em França. Vendo aquele carro, eu quis fazer algo de próprio, peguei num normal 911 de 2 litros de 1965 e transformei-o aqui para ficar como os 935 de Grupo 5. Este carro correu primeiro nas mãos do “Kiko” (Clemente Ribeiro da Silva), com as cores da Arbo, e depois passou para o “Quim” Moutinho, que correu com as corres da Lopes Correia. A seguir foi a vez de o António Barros me pegar no carro, tendo corrido com as cores da Ponto Verde, passando de seguida para o Rufino Fontes, com o patrocínio da Maconde, até ser destruído no incêndio” (Nota: da Garagem Aurora, como descrito noutro lugar).

Continua Eduardo Santos: “Quando aluguei o carro ao António Barros, comecei por construir outro para o “Quim” Moutinho correr, também na base de um 911 normal, tal como o primeiro. É o que aparece nas fotos com as cores da Miura/Ciprac, e ainda hoje está aqui na oficina. Este carro correu em 1981 também nas mãos de Rufino Fontes, depois de o Moutinho se ter sagrado campeão em Vila do Conde.”

 

    Estoril, 1977: o primeiro Porshe Aurora RSR que foi pilotado por Clemente Ribeiro da Silva. Este carro seria modificado no ano seguinte, ficando esteticamente semelhante aos 935 que a Porsche utilizou nas primeiras provas do Mundial de marcas de 1976, vindo a conquistar dois títulos nacionais de velocidade, em 1979 e 1980.   (foto: colecção José Avelino Gonçalves)

 

    Vila do Conde, 1980: o segundo Porsche 911 de Grupo 5 construído pela Garagem Aurora e habitualmente utilizado por Joaquim Moutinho   (foto: Rui Queirós)

 

    O Porsche 911 Grupo 5 de Robert Giannone no circuito de Vila do Conde. Apesar de ter sido modificado para o padrão "935" nas oficinas Almeras, em Montpellier, este Porsche foi sempre assistido na Garagem Aurora e foi a inspiração para a versão "935" do Porsche Aurora de Grupo 5   (foto: Pub.Giannone)

 

     Robert Giannone fez toda a sua carreira desportiva ligado à Garagem Aurora. Um detalhe pouco conhecido é que Eduardo Santos e Giannone nasceram na década de quarenta, precisamente no mesmo dia e ano.  (foto: Pub.Giannone)

 

 

CG: “Porque é que a dada altura se dizia que em algumas rampas o Barros tinha problemas de motor nos treinos de sábado, e depois “voava” na prova de domingo...”

ES: “Se o Barros voava era porque era bom piloto, e se ele tinha algum problema de motor num sábado, qual era a dificuldade em arranjá-lo para o domingo? Muito mais complicado foi adaptar o 6 cilindros do Carrera 6 numa só noite para o 907 do Carlos Santos! E o Barros passou a “voar” muito mais quando lhe transformei o motor para 3,2 litros aqui na oficina, e mais ainda quando ele foi comigo a França, ao preparador Meznarie, comprar um 3,5 litros!”

 

   A Garargem Aurora, em peso, nas primeiras linhas de Vila do Conde 80!  António Barros e Joaquim Moutinho estão na frente, seguidos de Robert Giannone.  (Automundo)

 

A conversa prolongou-se ainda durante muito tempo, mas o essencial ficou aqui dito. Esperamos que seja um contributo suplementar para uma mais completa visão sobre a história da mítica “Garagem Aurora”. Um grande “Obrigado”, amigo Eduardo!

 

 

 

     Para lá da omnipresente competição, a Garagem Aurora cuida também de muitos carros particulares, essencialmente da marca de Zuffenhausen. Na imagem, um 356.  (foto: Carlos Gilbert)

 

    Segunda Geração:  "Mestre" Eduardo Santos posa junto ao Porsche 911 Carrera RSR que Carlos Filipe Santos utiliza no Campeonato Nacional de Clássicos.     (foto: Carlos Gilbert)

 

    Eduardo Santos e um Flat-6 Porsche: uma relação de décadas que começou com um estágio na Alemanha, em 1968, quando da aquisição do Porsche 911 R de "Mané" Nogueira Pinto.  (foto: Carlos Gilbert)

 

     Memórias: no decurso desta entrevista, Eduardo Santos observa com atenção algumas fotos representativas da sua carreira.    (foto: Carlos Gilbert)

 

 

Agosto de 2004

Carlos Gilbert

 

 

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 Legendas: RG

 

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