INAUGURAÇÃO EM LUANDA

 

 

Por José Mota Freitas

 

Num local a cerca de 30 km da Capital Luanda, na estrada Luanda – Barra do Cuanza onde um ano antes apenas havia uma extensa planície coberta de denso capim e onde passeavam livremente cabras do mato e pacassas, a partir de 28 de Maio de 1972 passou a existir um moderno autódromo.

 

As obras foram iniciadas em meados de 1971. A entretanto criada empresa Autodel, através dos seus administradores/accionistas António Pinto da Fonseca, Rui Gonzaga Martins e o piloto António Peixinho, encarregaram do projecto o Arquitecto brasileiro Ayrton Cornelson (o mesmo projectista da pista do Estoril) e o Eng.º Júlio Basso.

 

            Aliás, os impulsionadores do projecto foram na altura acusados de megalomania, mas o facto é que conseguiram realizar uma obra magnífica que poderia proporcionar aos Angolanos corridas de alto nível e trazer à então Província Ultramarina os maiores pilotos e carros do momento. Depois de já inaugurada a pista de Benguela, Angola ficava assim a ganhar ao Continente por 2-0, pois o Estoril só seria inaugurado 21 dias depois.

 

     

 

            A pista tinha no seu traçado maior 6280 m, havendo também mais quatro alternativas a partir de 3208 m. O traçado era percorrido, curiosamente, ao contrário dos ponteiros do relógio.

 

            Ao contrário de Benguela (que, ao que parece, tinha as boxes com cobertura em colmo…), o Autódromo de Luanda, na data da inauguração tinha já bastantes infra-estruturas concluídas: a torre de controlo quase pronta, zonas de acesso, heliporto e 30 amplas boxes. Na pista a principal novidade eram os enormes painéis luminosos serviam para substituição das bandeiras de sinalização. Para construção posterior ficaram um hospital de urgência, salas de administração, apartamentos para os pilotos, oficinas, bancadas definitivas para 20.000 pessoas, pois as que foram utilizadas na inauguração eram provisórias. Ficou também por construir um restaurante para o Clube do Autódromo e estava projectado um complexo turístico-hoteleiro com um motel de 200 quartos, um mini campo de golfe (“Golfinho”), 106 “bungallows”, um cinema “ao ar-livre” (300 lugares) e um supermercado e centro comercial com 38 lojas. Segundo opinião de entendidos, como o piloto Emerson Fittipaldi ou o fotógrafo Bernard Cahier, quando pronto, Luanda teria o melhor autódromo do mundo, melhor ainda do que a referencia da época, a pista belga de Nivelles.

 

            No dia da inauguração, notava-se logo cedo um frenesim pouco habitual entre a “aficcion” angolana e cerca das 8 horas da manhã já a bancada principal estava quase completa. A partir das 9 começaram a roncar os motores para se disputar a prova da “Velha Guarda” destinada não propriamente a pilotos veteranos, mas a homens com alguma experiência. 15 Concorrentes deram 10 voltas à variante Nº 3 (4.414 m), tendo terminado 14. O vencedor foi Hélder de Sousa, na altura correspondente do Jornal “O Volante” em Angola, que conduzindo com a mestria que se lhe reconhece o seu Ford Capri 2600 GT, bateu Bandeira Vieira num carro igual. O 3º classificado foi o “grande” Silveira Machado, uns dos melhores pilotos angolanos de sempre, que não muito anos antes havia deliciado os seus conterrâneos com as suas façanhas ao volante do Saab 96 e do pequeno Fiat Abarth 1000 Corsa, carro que aliás é agora pertença do piloto-coleccionador Manuel Ferrão.

 

   

 

Partida da corrida de Grupo 1 Consagrados, com os Ford Capri 3000 a dominarem os acontecimentos

 

            Em seguida foi a vez dos Consagrados fazerem a sua prova em Grupo 1. 15 voltas à variante Nº 3, perfazendo 66,2 km. Alinharam apenas 8 concorrentes tendo vencido “Larama” seguido de Waldemar Teixeira e Amândio de Carvalho, todos em Ford Capri 3000 GT. Estes carros eram pertença do importador da marca, a Mocar e serviam habitualmente no mesmo fim-de-semana para fazer 2 ou 3 corridas com pilotos diferentes! O melhor BMW 2002 Ti, foi o de António José Oliveira em 4º lugar. O vencedor “Larama” seria mais tarde um dos melhores pilotos em activo nos Açores e seria um dos animadores do Troféu Citroen Visa. Waldemar Teixeira iria adquirir no ano seguinte após a corrida de Moçamedes, o Lotus 62 de Ernesto Neves e no final de 1973 compraria um excelente Chevron B21 a Roger Heavens, carro que infelizmente teria pouco uso em África, pelos motivos que se sabem.

 

            A finalizar o programa da manhã disputou-se uma prova de motos, modalidade que atraía sempre em Angola uma grande multidão de entusiastas. 10 pilotos, deram 15 voltas ao traçado Nº4 (5.780 m), tendo vencido a Yamaha 350 de José Silva, que recuperando desde a última posição até ao 1º lugar, entusiasmou todos os que a ela assistiram. Saliente-se que desde a bancada principal, havia quase 100 % de visibilidade para todo o circuito, o que contribuía para o interesse permanente entre o público aí presente.

 

            Após esta prova seguiu-se um período de descanso para os afadigados organizadores, comissários e cronometristas e procedeu-se ao lado solene da inauguração: o Governador-Geral e o Bispo de Luanda percorreram a pista num cortejo em carro aberto, seguidos de 80 automóveis de corrida, isto é todos os que participavam nas provas.

 

            Os iniciados (Grupo 1) vinham a seguir e apresentavam um plantel bastante numeroso. Alinharam 18 carros para uma prova de 15 voltas. Assistiu-se a mais um recital dos Ford Capri 2600 GT, pois ficaram 5 entre os 6 primeiros! Venceu Raul Esperto, que dominou a prova de início a fim, conseguindo assim a sua primeira vitória. O 2º classificado foi Zeca Gomes, habitualmente um nome a ter em conta em provas angolanas e pai do actual piloto Gonçalo Gomes.

 

   

 

Corrida dos Grupos 2 a 5: em primeiro plano o BMW 2002 Schnitzer de Mabílio de Albuquerque

 

            Para o fim guardava-se o “prato forte”, a prova de “Grupos 2 a 5”. Infelizmente ausentes estavam os pilotos de Benguela, como Herculano Areias e Emílio Marta, que não pôde trazer o seu Ford GT40, pois estavam suspensos pelo ATCA (a Federação Angolana).   Entre os favoritos contavam-se os BMW 2002 Schnitzer do “Team Tecar”, entregues a António José Oliveira, Porfírio de Oliveira, José Bandeira e Mabílio de Albuquerque, o Lotus XXIII de Carlos Conde, o Lotus Seven “Chana”, uma transformação local de Fernando Coelho e o Alfa Romeo GTAm de Mané Nogueira Pinto. Dada a partida, Fernando Coelho partiu à frente, mas rapidamente Mané o ultrapassa e comanda até ao fim, percorrendo as 15 voltas ao circuito Nº 5 (6.280 m) em 43 minutos e nove segundos. O 2º foi José Oliveira que pilotou o belo BMW Schnitzer que haveria de trazer para o Continente em 1975. Seguiram-se Fernando Coelho, Vítor Morgado (BMW Schnitzer), Carlos Conde, Henrique Cardão (Alfa GTA), o Cooper S de Fernando Carneiro (sim, é o mesmo que corre actualmente!) e Santos Peras (Subaru). Terminaram a prova 13 concorrentes.

 

   

 

  Mané Nogueira Pinto, com o Alfa Romeo GTAm vencedor da corrida dos Grupos 2, 3, 4 e 5

 

            Em Julho, disputar-se-ia o “1º Circuito Feminino”, com muitas participantes e a vitória a sorrir a Maria de Lurdes Sousa num inevitável Capri 2600 GT.

 

            Mas o ponto alto de Luanda em 72 seria a prova de 3 Horas disputada em Agosto. Aos habituais participantes juntavam-se vários visitantes bem equipados: o Lola T280 – Ford DFV do Team BIP para Carlos Gaspar; os Chevron do inglês Roger Heavens (B21) e do Sul-africano John Rowe (B19); o Lola T212-Ford (igual ao de Ribeirinho Soares) de Andre Verwey – este carro ficaria em Angola após a prova, adquirido pela Autodel – o Alfa Romeo GTAm do sul-africano Arnold Chatz, o Opel Manta Steinmetz de Helder de Sousa e o novo Ford Capri 2600 RS de Teixeira da Silva. Venceu Heavens seguido de Chatz e Teixeira da Silva.

 

  

 

Partida das 3 Horas de Luanda: a adiantar-se sobre a linha da meta vemos o Chevron B21 de Roger Heavens, tendo ao seu lado o Chevron B19 de John Rowe e o Lola T280 de Carlos Gaspar. Atrás do Lola, Arnold Chatz tenta passar com o Alfa Romeo GTAm e, sensivelmente no mesmo alinhamento, mas do outro lado da pista, está o Lola T212 de Andre Vervey. Perto do Lola, no meio da pista, está o Chana Lotus de Fernando Coelho, uma produção local sobre chassis e mecânica de um Lotus Seven.

 

            Em 73 e 74 disputar-se-iam interessantes provas na pista luandense, tendo como ponto alto as anualmente integradas na “Temporada angolana” juntamente com as de Nova Lisboa e Benguela. Delas falaremos noutra oportunidade.

 

            Em 1974 seria o 25 de Abril e a seguir a descolonização e a consequente independência de Angola. Os anos seguintes foram de guerra civil.  Actualmente no Autódromo de Luanda fazem-se 4 ou 5 provas por ano, de âmbito meramente local.  Mas o facto é que 32 anos depois, o propósito inicial do Autódromo de Luanda em “trazer a Angola os melhores carros e os melhores pilotos do mundo” ainda não foi cumprido. Mas quem sabe ainda se num futuro a médio prazo, isso não irá acontecer…

 

 

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  Texto: JMF  Fotos: arquivo JMF

 

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