Circuito de Vila Real

 

 

A “Curva da Salsicharia”

 

 

 

 

Por Carlos Gilbert

 

Uma das curvas mais faladas do circuito de Vila Real era a famosa direita que antecedia a recta que ia dar às boxes e à zona da meta (não contando com os ligeiros “joelhos” para a esquerda um e para a direita o outro, imediatamente antes da meta em si). A “curva da salsicharia” era bem mais difícil do que muita gente poderia pensar à primeira vista, e isto por diversas razões que iremos tentar explicar imaginando levar o leitor a bordo de uma viatura de competição.

 

A ponte metálica sobre o rio Corgo que a antecede era feita “a fundo”, e com a luz do sol a bater em cheio. Feita a ponte vem uma pequena parte a subir, em ligeiro joelho para a esquerda e na sua parte final já entre alto casario, em plena sombra, portanto. Logo a seguir vem a famosa direita que aqui se descreve, iniciando-se a parte mais rápida do circuito, a subir também, e com uma grande mancha de sombra mesmo na saída da curva. Obviamente que, para apimentar, com os famosos e altos passeios citadinos a bordejar todo o trajecto…

 

Imagine-se o leitor a conduzir uma viatura de competição: saído da “zona do jardim” da margem esquerda do rio Corgo, feito em grande parte na sombra, entra na ponte metálica: endireita o carro e dá gás a fundo, adaptando-se à intensa luz solar do verão. À sua frente vê a pista a estreitar, entre o casario, autêntico “buraco negro” com um “joelho” no meio… Sentindo-se nessa escuridão da sombra, guina o volante um pouco para a esquerda, mas já em plena travagem para a direita em si, para a traiçoeira “curva da salsicharia”. «Maldito talho», deverão ter pensado dezenas de pilotos neste sítio, enquanto manuseavam ao mesmo tempo volante, pedais e “manete” da caixa de velocidades… sim, porque para tornar as coisas mais complicadas, havia que reduzir pelo menos duas velocidades de caixa!

 

Ao fazer isto tudo, a mente do piloto vai para as bermas do passeio, primeiro a do lado esquerdo, no referido “joelho”, depois o do lado direito mesmo no vértice da curva, e depois a do lado esquerdo, já na saída. Sabendo, claro, que para um bom tempo de volta teria que sair desta “maldita salsicha” o mais rápido possível, para ter a velocidade necessária para a parte ultra-rápida que vem a seguir! E, para que não houvesse qualquer tipo de descanso, essa parte só terminava (bem, “terminava” é como quem diz…) na zona a seguir à Timpeira, no cruzamento para Sabrosa.

 

Tendo feito antes da “salsicharia” partes “turisticamente interessantes” como a “Araucária”, a “curva Ford”, a estreitíssima “passagem de nível” e os “esses do jardim”, o piloto chega à zona da meta mais com vontade em ir às boxes mandar ver se as rodas estão bem apertadas do que continuar para nova volta…

 

Para ilustrar o que aqui se descreve mostramos a nossa curva predilecta com três fotos tiradas na prova de “Turismo de Série” no ano de 1970: duas tiradas no sentido da ponte metálica em que vemos diversos concorrentes; na primeira, um Mini em plena curva a ser seguido por um grupo de concorrentes, uns ainda na ponte, outros já na abordagem da curva; na segunda, o BMW da frente (nº 16) já no vértice da curva e com o piloto concentrado na saída da mesma, o BMW que o segue a abordar a curva em si e com o piloto concentrado no passeio à sua direita, e por fim o terceiro BMW ainda no referido “joelho” à esquerda em plena travagem e redução de caixa, tentando apontar o carro de forma correcta para a curva principal… A terceira imagem mostra a saída desta “raínha-de-todas-as-curvas” – pelo menos no aspecto técnico – com um concorrente em perfeito “powerslide”, vendo-se bem a recta a subir que leva já à zona da meta.

 

                   Fotos de Carlos Gilbert

 

Imaginem os leitores o que é fazer aqui uma prova de 6 horas ou mesmo de 500km, em pleno sol de verão transmontano!... E , observando bem todo o cenário, compreende por que motivo quem assistiu a provas deste género só muito a contra-gosto vai a um autódromo…